ObturaÇões

Volta por cima do amálgama

 

Não creio que tenha sido uma questão de debate público intenso no Brasil, mas o mercúrio presente nas obturações com o chamado amálgama alimentou nas duas últimas décadas uma verdadeira fobia na Europa e entre obcecados com saúde nos Estados Unidos. O metal pesado e tóxico instalado em nossas bocas ganhou uma fama de vilão só comparável ao radônio, elemento radioativo que emanaria insidiosamente das paredes, e do amianto (ou asbesto), cujas fibras assassinas também brotariam das construções para espalhar tumores de pulmão na população incauta, como o radônio.

No caso do amálgama, espalhou-se a convicção de que as obturações dentárias confeccionadas com o metal maligno estaria na origem de fadigas, dores de cabeça, tonturas inexplicáveis e até o mau comportamento das crianças de hoje. A solução óbvia, para felicidade dos dentistas, era sua substituição por obturações de outros materiais. Que se abra a primeira boca na qual uma substituição dessas nunca foi realizada.

Pois bem, parece que o amálgama não era tão ruim quanto a sua fama. Mais uma vez, o dedo foi posto na ferida do jornalismo de saúde pelo médico Ben Goldacre, colunista do jornal britânico The Guardian. Goldacre assina a seção "Bad Science" (Má Ciência), onde espinafra as muitas lendas sem lastro científico ou empírico que se propagam como vírus pelos meios de comunciação. No último sábado, partiu para a reabilitação do vilipendiado mercúrio bucal.

Goldacre reclama, com razão, que nenhum meio de comunicação deu destaque para o primeiro estudo publicado que usou a metodologia consagrada da medicina baseada em evidências para dirimir a questão. Saiu na edição de 19 de abril do respeitado periódico médico JAMA, da Associação Médica Americana, e pelo visto não foi só na imprensa britânica que passou em branco.

Participaram do estudo 534 crianças de 6 a 10 anos atendidas em clínicas dentárias da região de Boston. Elas foram aleatoriamente distribuídas em dois grupos, um dos quais teve suas cáries obturadas com amálgama, enquanto o outro recebia obturações de materiais livres de mercúrio. As crianças foram então acompanhadas por um período mínimo de cinco anos, para registro de eventuais diferenças nas suas funções neurológicas e renais.

Embora as crianças do primeiro grupo tenha apresentado níveis 50% mais altos de resíduos de mercúrio na urina (0,9 micrograma por grama de creatinina, contra 0,6 no outro grupo), elas não apresentaram diferença estatisticamente significativa de desempenho em testes de raciocínio, memória e visão, nem no funcionamento dos rins. Os autores concluem:

"Embora seja possível que efeitos muito pequenos no QI não possam ser excluídos, estes resultados sugerem que os efeitos sobre a saúde de obturações com amálgama em crianças não devem ser a base de decisões de tratamento quando da escolha de materiais de restauração dentária."

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Uma resposta para ObturaÇões

  1. AUGUSTO disse:

    o amalgama nunca deixara de ser o material mais indicado para certos pacientes, pois suas qualidades nunca deixara que resinas tomem seu lugar. qual resina dura o tempo que ele dura? qual resina tem sua durabilidade parecida com o esmalte dentario? qual resina pode ser capaz de manter a cavidade intacta de bacterias? o que precisamos é nós como profissionais tomarmos os devidos cuidados ao inserir o amalgama , ao removermos restaurações antigas e tambem cuidarmos dos residuos devidamente para que não sejam jogados na natureza.

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