SE OS OLHOS NÃO TIVESSEM LÁGRIMAS …

Se os olhos não tivessem lágrimas, a alma não teria arco-íris”.(Provérbio Chinês)

A gente nem pode ficar triste um pouquinho. É como se a felicidade fosse uma obrigação, é como se te dissessem assim: “Se você não for feliz então pra que viver?”.Você fica com a sensação de que se não estiver satisfeito com a vida, se as coisas não estiverem dando certo, é um fracassado, um João-ninguém, um traste, um lixo.

A literatura de auto-ajuda nos dá a impressão que você tem de sair das dificuldades porque tudo é divino e maravilhoso, que não há motivos pra você se abater. Basta ver as milhares de mensagem que pululam na internet e lotam nossa caixa de e-mails com esse sentido.São correntes, arquivos de power point , histórias verídicas e religiosas sempre demonstrando que “o sofrimento é opcional”.

Mas antes da luta vem o luto.Ele é necessário, precisamos conviver com a dor e criar uma solução para ela.O que não pode é passar do ponto e ficar cultivando aquela dor, ter ela como uma dor de estimação, usada como desculpa ou para se fazer de vitima, para ilustrar que a nossa vida é uma droga e que nada dá certo pra gente.

 “Pollyanna” é um livro da escritora Eleanor Porter que fala sobre uma menina que sempre vê o lado bom das coisas. Porém o exagero de ver tudo “azul” o tempo todo passa a impressão que ela é uma alienada, uma chata de galocha, porque a visão dela edulcorada da vida exclui a possibilidade de se sofrer por algo. A dor faz parte de um processo de transformação interior, e quando estivermos prontos então a luz entrará pela nossa lágrima que como um prisma fará com que sai dela colorida como um arco-íris.

No Brasil o livro foi adaptado por Monteiro Lobato e eu li Polyanna em dois momentos distintos da minha vida, um quando tinha 12 anos, indicado pela minha mãe que amou o livro, no outro quando já tinha 25 anos, na praça Buenos Ayres em São Paulo, debaixo de uma árvore nas tardes livres que tinha quando ainda estudava Comércio Exterior.Na primeira situação fiquei maravilhado pelo “jogo do contente” e pelo método do pensamento positivo, mas não me convenceu muito que eu realmente teria controle absoluto sobre tudo.Eu não podia, por exemplo, fazer que os outros me aceitassem como eu sou.E isso me decepcionou e guardei o livro no fundo de uma gaveta.

Quando li pela segunda vez, junto com o “Diário de Anne Frank”(porque estava irremediavelmente apaixonado por uma moça de origem judia), notei que na verdade Pollyana não era tão chata assim e nem tão conformista, mas que pra ela a solução é ver que há sempre alguma coisa melhor, embora o mundo seja um mar de dor.E todas as pessoas com quem Polyanna se relaciona tornavam-se pessoas melhores.Assim como o pessimismo contamina, o otimismo contagia.É melhor que as pessoas nos conheçam como alguém que ache que no fim tudo vai dar certo do que alguém que imagina que tudo vai dar sempre errado.

O capitalismo por tratar-se de um sistema que visa o lucro em todas as atividades, se pudesse cobrava até o preço do ar que respiramos, não tem como objetivo produzir pessoas resolvidas, saudáveis e felizes; a ele interessam as insatisfeitas consigo mesmas, pois quanto mais ansiosas, mais consumistas se tornam.

O mundo jamais será perfeito.Haverá sempre do que se queixar, do que reclamar, tenhamos dinheiro ou não.Tenhamos saúde ou não.Dinheiro tem muito mais haver com comparação do que com nos poupar da dor. Por trás de uma pessoa que fere há sempre uma fera ferida, ninguém agride os outros, sem antes se martirizar e se auto-agredir muito, ninguém faz os outros infelizes, se primeiro não for muitíssimo infeliz.

Num conto de William Faulkner chamado “Palmeira selvagem”, o personagem no final faz a seguinte reflexão: “entre a dor e o nada eu prefiro a dor”.

 

http://andre.aquino12.blog.uol.com.br/arch2008-06-01_2008-06-30.html

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